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12:34

A Disciplina na Congregação Puritana

Postado por Harone Maestri Mattos

Hoje em dia, a questão da correta administração da disciplina eclesiástica é urgente e desconcertante. O que nos pode ajudar a definir nossa posição é levar em consideração opiniões dos séculos XVI e XVII.


A NECESSIDADE DA DISCIPLINA

Os Reformadores, tanto os do continente europeu como os da Inglaterra, eram unânimes neste assunto. Calvino diz: “Assim como a doutrina de Cristo é a vida da Igreja, também a disciplina é semelhante aos nervos da Igreja, porque dela depende a coesão dos membros do corpo, estando cada um no seu próprio lugar”. A disciplina é “um tipo de rédea para conter e domar os que lutam contra a doutrina de Cristo...um tipo de aguilhão para acordar os indiferentes”. A prática de Calvino em Genebra seguia com seu ensino. Durante seu primeiro ministério na cidade, ele se recusou a ministrar a Ceia do Senhor por causa das maldades da cidade. Cidadãos libertinos reagiram contra seu zelo inflexível, dando o nome de Calvino a seus cachorros, e ele foi expulso da cidade por três anos. Ao retornar, Calvino estabeleceu um tribunal da Igreja, composto de seis pastores da cidade e de doze presbíteros de suas congregações, que se reuniam cada quinta-feira para disciplinar “todo tipo de malfeitor, sem acepção de pessoas”.

A influência de Calvino sobre os Reformadores britânicos era muito grande no assunto da disciplina. O Livro de Disciplina de Knox, Os Livros de Oração e Artigos de Crammer, e mais tarde, os Cânones Eclesiásticos de 1603 mostram que nossos homens piedosos concordavam com os irmãos do continente que a confissão auricular e a penitência deviam ser substituídos por uma forma mais geral de disciplina. Esta disciplina era para eles uma marca verdadeira da Igreja, junto com a pregação da palavra e a administração dos sacramentos.

Na Inglaterra, porém, os desejos dos Reformadores foram em grande parte frustrados. O relacionamento entre Igreja e Estado, herança do passado, foi o motivo principal desta frustração. Segundo o direito comum, somente tribunais cívis podiam impôr penalidades aos excomungados. (Hoje em dia, “é duvidoso até que ponto um tribunal eclesiástico possa pronunciar uma sentença sobre um leigo em algum caso”. Boultbee, The Thirty-nine Articles, p. 278). Isto significava que a Igreja Estabelecida, embora clara em seus princípios, estava, desde os seus primórdios, muito limitada em sua ação.

Os Puritanos na época Elisabetana eram homem devotos, ligados à Igreja, que exigiam um sistema de disciplina que devia funcionar com base na paróquia. Por isso, eles eram às vezes chamados de “Disciplinadores”. Somente a disciplina, eles afirmavam, pode preservar a vida da igreja da perdição que é causada por desordens na congregação. Mais tarde, Baxter, testificou de seu trabalho em Kidderminster: “O exercício da disciplina eclesiástica foi um grande auxílio para o bem do povo: porque eu senti plenamente que sem ela eu não podia ter guardado o povo religioso de separações e divisões”. Evidentemente, o instinto disciplinador era sadio. Mas o desejo de ter disciplina não era apenas baseado na idéia de utilidade; o que mais perturbava estes homens era o fato de que estava sendo negligenciado um elemento essencial do padrão do Novo Testamento a respeito da ordem nas congregações.


OS OBJETIVOS DA DISCIPLINA

Para os Puritanos havia três objetivos:

1. Glorificar a Deus pela obediência à sua Palavra. Deus falou e prescreveu disciplina; portanto, eles têm que obedecer. Como sempre, os Puritanos tinham mais preocupação com a obediência do que com as conseqüências da obediência.

2. Garantir a pureza da fé e do modo de viver da Igreja. Se não houvesse disciplina, esta pureza estaria perdido. Como Thomas Goodwin diz, falando sobre Apocalipse 2 e 3, “Cristo chama as igrejas para que imitem o princípio padrão dado a elas, e naquilo em que elas se desviaram, Ele as reconduz ao que receberam e aprenderam com os apóstolos, no começo, contendo uma regra imutável da qual não se podem desviar. Agora, se elas não tinham a liberdade de se desviarem dos ensinos apostólicos, muito menos nós: Apocalipse 3:3 diz: “Lembra-te...do que tens recebido...e guarda­o, e arrepende-te”. Aquelas epístolas às sete igrejas tratam igualmente de disciplina e de assuntos de doutrina; porque o erro principal que Ele sempre acha neles é o relaxamento da disciplina pelo qual elas toleravam que pessoas ensinassem ou praticassem coisas erradas”. Baxter acusou em seu livro “Reformed Pastor” (“O Pastor Aprovado”) seus có-ministros de colocarem sobre suas próprias cabeças a culpa da blasfêmia, embriaguez, fornicação e outros crimes porque eles estavam negligentes no uso desta ordenança que Deus tinha dado “para a cura de pecadores”. (Não há de se admirar que seus colegas queriam que ele publicasse o livro em latim!)

Disciplina era também preciso para proteger os membros mais fracos da congregação contra influências nocivas; porque “má companhia é muito infecciosa. Homens perversos cobrem o caminho com lama, como o crocodilo, para que vocês caiam, e, quando estiverem caídos, eles suguem, por assim dizer, seu sangue” (Swinnock). Por isso, por amor do bebê em Cristo, o perverso tem que ser expelido da congregação.

3. Corrigir e recuperar o membro que está errando. Este assunto será tratado, depois, com pormenores.


CASOS PARA AÇÃO DISCIPLINAR

Pessoas culpadas de pecados escandalosos como fornicação ou roubo, ou de heresia tinham que ser censuradas e excomungadas imediatamente, a não ser que eles mostrassem sinais definitivos de arrependimento. Dentro do sistema que os Puritanos desenvolveram durante a época de Cromwell e que os “Não-conformistas” retiveram após “A Restauração”, delinqüências menores eram também censuradas. Aqui se seguem alguns exemplos relevantes para o século XX:

1. A falta aos cultos públicos era considerada o primeiro sinal exterior de relaxamento espiritual. O membro da igreja devia estar presente em todas as atividades. Os que iam de vez em quando eram imediatamente suspeitos. Em caso de ausência permanente e persistente, outro membro da igreja era nomeado para olhar os movimentos do faltoso e tentar levá-lo de volta.

2. A escolha de companhia de pessoas de fora da comunidade cristã era considerada caso de censura, especialmente quando a companhia era alguém do outro sexo e resultava num casamento com um descrente. “Oh! que tristeza. que mágoa, que perplexidade, que paixão sagrada essa abominação trouxe ao bom coração de Esdras!”, exclamou Brooks. “Se você é um homem de santidade, você tem que procurar mais a porção da graça na sua esposa do que uma porção de ouro: você tem que ir atrás de justiça mais do que atrás de riquezas; cuidar mais da piedade do que do dinheiro; cuidar mais da herança dela nos céus do que da herança que ela tem na terra; olhar mais o seu novo nascimento do que o seu berço numa família de classe alta...Você acha que o Deus que proibiu o uso do boi e do jumento, sob o mesmo jugo, para lavrarem a terra haveria de consentir estarem os fiéis ligados em comunhão com os que são reconhecidamente ímpios?”. Um batista esteve suspenso, se não excomungado, da sua igreja por 36 anos por tal erro. Alguns pastores puritanos encontraram um recurso contra casamentos mistos assumindo o papel de casamenteiros!

3. Além disso, o cristão puritano podia ser admoestado por causa de seu vestuário. Uma das muitas razões por que Deus “visitou” Londres com a Praga e o Grande Fogo, segundo Brooks, era esta: “Havia uma conformidade grande demais com os costumes do mundo por parte de muitos mestres do evangelho em Londres”. Comentando Ezequiel 23:15, ele diz: “Os que tomam emprestados os costumes dos egípcios, que eles recebam seus tumores e manchas. Certamente, os que temem ao Senhor só (devem usar aquela roupa que eles queiram usar, primeiro, na hora de morrer, segundo, na hora de comparecer perante o Ancião de Dias, terceiro, na hora de estar perante a poltrona de julgamento”. Sem dúvida, uma das razões por que o rei Carlos II achava que o presbiterianismo “não era a religião de um cavalheiro” era que os presbiterianos consideravam o traje real extravagante, indigno de um monarca!

“Quase qualquer falta à qual a fraca natureza humana está sujeita”, escreveu G.R.Cragg, “era considerada um pretexto adequado para admoestar um membro e exortá-lo a comportar-se de um modo mais digno. Paixões fortes, calúnia ou insulto, raiva (“sem provocação”), um espírito irritadiço e contencioso, insubordinação, tomar dinheiro emprestado e não devolvê-lo, tratamento duro contra outros membros, vaidade — estas e outras coisas eram consideradas motivos justos para disciplinar'.



MODOS DE DISCIPLINAR

A disciplina era igualmente preventiva e corretiva. A Disciplina preventiva era exercida, primeiro no exame cuidadoso de adultos que queriam entrar na igreja. “Em muitas congregações, ser recebido como membro não acontecia logo nem era coisa automática”, escreveu Cragg. “Em geral isto demorava, e uma investigação cuidadosa de cada caso era a regra”. Os candidatos tinham que demonstrar sinais de regeneração, tinham que ter vontade de publicamente professar o que Deus lhes fez, e tinham de estar dispostos para prestar completa obediência a Cristo e a seus mandamentos. Às vezes eles eram solicitados a subscrever uma forma de aliança. Citemos uma que foi redigida por Oliver Heywood: “Eu consinto também em ser membro desta igreja da qual o Sr. O. Heywood é o mestre e superintendente, e em submeter-me a seu ensino, à sua orientação ministerial e supervisão conforme a Palavra de Deus, em manter comunhão com esta igreja na pública adoração de Deus, e em submeter-me a admoestação fraternal de outros membros, para que sejamos edificados em conhecimento e santidade”.

Na Escócia, após a fase da disciplina preventiva vinha a de “proteger as mesas” (literalmente: “cercar as mesas”). Isto era feito através de um “sermão de ação” (ou de sermões), pregado antes da administração do sacramento, avisando aqueles que viviam conscientemente em pecado que eles não se aproximassem da Mesa do Senhor. O Livro de Orações contém uma admoestação em linguagem forte com a mesma finalidade. Era para ser lido para os que queriam participar da Santa Ceia: “Se um de vocês blasfemar de Deus, obstruir ou caluniar a sua Palavra, adulterar, ou se estiver com malícia, ou com inveja, ou se estiver cometendo qualquer outro crime grave, arrependa-se de seus pecados, ou então, não venha para a Santa Mesa. A menos que, depois de tomar o Santo Sacramento, o diabo entre em seu coração, como ele entrou em Judas, e o encha de todas as iniqüidades, e o conduza à destruição tanto de seu corpo como de sua alma”. John Owen disse: “Tome cuidado para que estas coisas sagradas sejam administradas apenas àqueles que são dignos, conforme a regra do evangelho. Aqueles que impõem aos pastores a administração promíscua destas divinas ordenanças ou impõem que os selos sejam aplicados em todos sem discriminação, anulam a metade do ofício e dever ministeriais”.

As fases da disciplina corretiva estão expostas na Confissão de Westminster XXX,4 . O pecador tem que ser admoestado, numa conversa particular, ou, se for preciso, publicamente. Se ele não ligar para isto, deve ser suspenso da Mesa do Senhor. Isto se chamava, às vezes, “a excomunhão menor”. A fase final é a excomunhão completa da congregação. Este passo solene não pode ser feito apressadamente ou sem motivo, porque, come Owen escreve, “a grande regra de cada comunidade eclesiástica deve ser que as pessoas observem e façam tudo o que Cristo, o Senhor ordenou, e que ninguém possa ser expulso da comunidade senão por motivo justo de desobediência deliberada a Seus mandamentos. E por isso excluir da comunidade da igreja, com base em motivos leves e triviais,....é contrário à luz natural e à própria lógica das coisas”. Somente quando não houver mais dúvida alguma sobre a culpa do pecador e tudo ter sido feito para persuadí­lo a fim de ele endireitar seus caminhos, é que deve ser cortado da vida da igreja.

Falando das conseqüências da excomunhão completa, Goodwin escreve: “O próprio efeito interior que acompanha esta ordenança é a aflição interior e angústia da consciência por parte de Satanás, a qual é a maior punição de todas as aflições...É isto que nós notamos no caso do homem em Corinto. Sobre a excomunhão dele foi dito que ele foi entregue a Satanás em nome do Senhor Jesus (1 Coríntios 5:4). Ele foi expulso pela ordem de Cristo, assinada por Ele no céu, e publicada na terra, em seu nome”. Mais comentário sobre a solenidade do ato seria supérfluo. Uma frase muito usada no século XVII a respeito da sentença sobre pecadores diz que ela foi proferida “com lamentação e dolorosa preocupação”.

Baxter recomendava um período de três dias de oração anterior à excomunhão; durante estes dias a congregação tinha de reunir-se e orar intensamente pelo impenitente. Porções das Escrituras como Levítico 17 e 1 Coríntios 5 seriam lidas e comentadas. Após uma declaração detalhada dos pecados do transgressor e dos meios em vão usados para corrigi-lo, declarava-se: “ele não é mais membro desta congregação a partir de agora, mas tem que ser expulso para o mundo e não pode mais ter parte conosco nos santos mistérios do Senhor, nem na comunhão conosco, e nem gozar dos privilégios da Casa de Deus; — que o Senhor tenha compaixão da alma dele” (Cragg). A congregação era admoestada a tratá-lo como “um gentio e publicano” até que fosse recebido de novo, e orar pela alma dele durante esse período. Às vezes esse ato era acompanhado de um jejum congregacional.

O espírito do ato da excomunhão tinha que ser correto; os extremos de descuido, por um lado, e de dureza legalista e censuradora, por outro lado, tinham que ser evitados igualmente. Quando líderes puritanos tratavam deste assunto, eles mencionavam muitas vezes as lágrimas de Paulo. Pastores e seus rebanhos eram lembrados de que Paulo tinha admoestado os efésios “noite e dia...com lágrimas”, e de que ele escreveu aos coríntios “no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração...com muitas lágrimas”, (Atos 20:19,31; 2 Coríntios 2:4). Um século antes, Calvino havia comentado que a disciplina exercida pela igreja tem “como objetivo a cura da doença e não a destruição do pecador”, e que “a vara que se usa para castigar tem que ser uma vara paternal”. Owen toca no mesmo assunto: “A natureza e a finalidade deste julgamento ou sentença tem que ser corretiva, e não vingativa; deve servir para curar, e não para destruir”. Baxter concorda, dizendo: — Deve-se usar de prudência no procedimento, senão, produziremos u ma coisa má em vez de uma coisa boa...temos de agir com humildade, mesmo agindo com severidade; temos de deixar claro que não estamos agindo por má vontade, nem por arrogância, nem por vingança, mas por causa de um dever necessário, que não podemos negligenciar conscientemente”. A tentação de tiranizar é real mas tem que ser resistida. Owen dá princípios que podem pôr à prova os motivos da disciplina:

1. A excomunhão não é permitida quando houver dúvida.

2. Todos os preconceitos, toda a parcialidade, todas as provocações, toda a pressa e precipitação na administração da disciplina têm que ser evitados cuidadosamente, pois quem julga é o Senhor.

3. Em tudo isso deve haver uma lembrança constante de que nós também estamos na carne e sujeitos à tentação. Isto pode conter e amedrontar aquele ardor e confiança que alguns são aptos a manifestarem em tais casos.

A disciplina tem o propósito de corrigir o pecador e, por isso, nada deve ser feito num espírito que coloca obstáculos desnecessários no caminho de sua reintegração eventual.



A REINTEGRAÇÃO DO PECADOR

Os puritanos eram cautelosos a respeito de pessoas excomungadas e não as aceitavam novamente com base em uma só profissão de arrependimento. Eles estavam lembrados de que o Senhor ressuscitado submeteu Pedro, o apóstolo errante, a um interrogatório cruzado, minucioso, antes de aceitá-lo novamente em seu favor (João 21:15 sggs.), e levavam em consideração a distinção entre a “tristeza segundo Deus, que produz arrependimento para a salvação” e a “tristeza do mundo”, que “produz morte” (2 Coríntios 7:10). As características da verdade e sinceridade na confissão de arrependimento, procuradas pelos puritanos, foram formuladas por Brooks da seguinte maneira:

1. O verdadeiro arrependimento é livre e voluntário, não forçado, nem exigido com má vontade, como as confissões de pecado de Faraó e Saul.

2. A verdadeira confissão de arrependimento é total e completa. O contraste está na confissão de Judas, que reconheceu sua traição de sangue inocente, mas não sua cobiça.

3. A verdadeira confissão de arrependimento é sincera e provém dos efeitos da graça sobre a alma.

4. A verdadeira confissão de arrependimento é clara, e não confusa. Nela, os pecadores confessam seus pecados em todos os detalhes, como Davi confessou seus pecados pessoais de adultério e culpa de sangue.

5. Quem está verdadeiramente arrependido confessa as circunstâncias agravantes de seu lapso.

6. Quem está verdadeiramente arrependido está triste e vem perante Deus como os servos de Benadade, com as cordas à roda da cabeça. “As lágrimas de arrependimento são embaixadores inegáveis”.

7. A verdadeira confissão de arrependimento está sempre misturada com fé, embora nem sempre com fé firme.

8. O verdadeiro arrependimento é acompanhado de uma reforma de vida. A confissão era para ser feita somente perante Deus, mas senão tivesse estes sinais da “tristeza segundo Deus”, o pedido de reintegração tinha que ser suspeitado. O modo de restabelecimento variava de uma para outra congregação, mas em geral era simples, consistindo principalmente em louvor e oração para que o membro reintegrado pudesse, daí em diante, ser preservado no Caminho. Às vezes isto era acompanhado da imposição de mãos. Em algumas congregações, esperava-se que a pessoa que se arrependeu e foi integrada, expressasse sua tristeza sobre seus pecados públicos e privados na presença da igreja, e pedisse perdão, publicamente, àqueles a quem maltratou.


O “PODER DAS CHAVES”

O assunto da autoridade exercida na disciplina foi amplamente discutido no século XVI!. A posição puritana era que o poder de excomungar e reintegrar estava na Palavra, e conseqüentemente na Igreja, desde que a Igreja aplicasse a Palavra corretamente por intermédio de seus representantes devidamente autorizados. “Esta excomunhão”, diz Owen, “é um ato da autoridade eclesiástica exercido em o nome do Senhor Jesus Cristo; e, como tal, ele é um ato dos oficiais da Igreja...porque não há outra autoridade na Igreja, propriamente dita, além daquela que está com os oficiais da Igreja...E há duas razões que provam que o poder de excomungar, em termos de exercício de autoridade, está com os presbíteros da Igreja:

1. Porque os apóstolos, em virtude do poder de seu ofício em cada Igreja, tomaram parte na excomunhão autorizada, como é claro no caso de 1 Coríntios 5; e não há poder de ofício que tem permanecido, senão o poder que está com os presbíteros da Igreja.

2. Trata-se de um ato de governo; mas todo governo, propriamente dito, está somente nas mãos de governantes. Podemos acrescentar a isto que cuidar da preservação da Igreja em sua pureza, da defesa de sua honra, da edificação de seus membros, da correção e salvação dos pecadores, é um cargo especialmente entregue a eles”. Porém, para se proteger contra um equívoco, Owen se apressa a acrescentar que a excomunhão é apenas um ato dos presbíteros “na questão do poder”; porque a execução desta sentença é entregue...ao corpo da Igreja. Na medida em que os membros da igreja cooperaram e praticam, a excomunhão é executada; porque são eles que retiram do seu meio a pessoa excomungada; doutra forma, a sentença é inútil ou inválida. A punição tem que ser imposta “pela maioria” (2 Coríntios 2:6); são eles que também devem reintegrar a pessoa rejeitada. Por esta razão, uma excomunhão sem o consentimento da Igreja é uma mera nulidade”. Esta citação reflete o fato de que o pastor puritano estava consciente de que ele tinha recebido poder do próprio grande Cabeça da Igreja, para governar e exercer disciplina. Hoje em dia, esta consciência se perdeu em grandes proporções, e prevalece uma visão pobre do ministério cristão. Esta é sem dúvida uma das razões por que a disciplina eclesiástica caiu em descrédito.


ALGUMAS CONCLUSÕES PRÁTICAS

É claro que tanto os reformadores como os puritanos consideravam a disciplina como uma das marcas da Igreja bem regulada. Calvino repudiava com ênfase a atitude dos que eram contra a disciplina, quando disse: — “Todos os que desejam que a disciplina seja abolida, ou que impedem sua restauração, seja por descuido seja de propósito, certamente têm como objetivo a completa devastação da Igreja”. Se isto é correto, sendo a disciplina uma das marcas que distingue a verdadeira Igreja da falsa, certas práticas do século XX precisam ser investigadas seriamente, por exemplo, batizar sem distinção, convites irrestritos para a Mesa do Senhor, o segundo casamento de pessoas divorciadas sem investigar suas situações, e receber candidatos a membros da igreja sem examiná-los. E o que dizer das boas­vindas cordiais muitas vezes dadas a membros de uma igreja vizinha, que vivem em pecado? E o que dizer dos que não freqüentam os cultos, mas que sempre tiveram seus nomes no rol eleitoral (ou no rol da comunhão) por anos a fio, só para assegurar as recompensas “post-mortem”? Será que nós, por nosso descuido, estamos contribuindo para a completa devastação da Igreja? Se nós temos uma convicção sobre este assunto, estamos dispostos a fazer esforços positivos para emendar nossos caminhos e levar de volta a ordenança da disciplina para seu próprio lugar?

Deixe Baxter encerrar:

“Se os ministros fossem escrupulosos fazendo este dever inteiramente, negando-se a si mesmos, eles poderiam ter algum resultado e esperar uma bênção sobre seu trabalho. Mas se recuamos diante de tudo o que for perigoso ou ingrato em nosso trabalho, e nos livramos de tudo o que for custoso ou incômodo, nós não podemos esperar que tal uso carnal dos meios produz a alguma coisa eficaz. Não podemos esperar que o evangelho avance e seja glorificado, se fazemos nosso dever de modo tão falho e defeituoso”.

Que Deus nos ajude a perceber bem o sentido destas palavras.

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