Ordo Salutis

Venceu Nosso Cordeiro Vamos Segui-LO


16:55

A Obra do Espírito Santo

Postado por Harone Maestri Mattos

São comparativamente poucos os tratados especiais sobre a Pessoa do Espírito Santo; e ainda mais raro é o tratamento sistemático de Suas Obras. Em dogmática, é verdade, este assunto é introduzido, desenvolvido e explicado, mas o tratamento especial é excepcional.

Assim como há muito escrito sobre Cristo, há pouco escrito sobre o Espírito Santo. A obra de John Owen neste assunto é conhecida muito amplamente e ainda não ultrapassada. Na verdade, John Owen escreveu três obras sobre o Espírito Santo; publicadas em 1674, 1682 e 1693. Ele era naturalmente um prolífico teólogo e escritor. Nascido em 1616, morreu com a boa e avançada idade de setenta e cinco anos, em 1691. Desde 1642, quando publicou seu primeiro livro, ele não parou de escrever até a sua morte.

Em 1826 Richard Baynes re-publicou os trabalhos de John Owen, D.D., editados por Thomas Russel, A.M., com as memórias e as anotações da sua vida (vinte e um volumes). Esta edição ainda está no mercado, e oferece um tesouro de teologia sólida e completa.

Além dos trabalhos de Owen, eu menciono os seguintes:

• David Rungius, “Proof of the Eternity and Eternal Godhead of the Holy Spirit”, Wittenberg, 1599.
• Seb. Nieman, “On the Holy Spirit”, Jena, 1655.
• Joannes Ernest Gerhard, “On the Person of the Holy Spirit”, Jena, 1660.
• Theod. Hackspann, “Dissertation on the Holy Spirit”, Jena, 1655.
• J. G. Dorsche, “On the Person of the Holy Spirit”, Köningsberg, 1690.
• Fr. Deutsch, “On the Personality of the Holy Spirit”, Leipsic, 1711.
• Gottfr. Olearius (John F. Burgius), “On the Adoration and Worship of the Holy Spirit”, Jena, 1727.
• J. F. Buddeuss, “On the Godhead of the Holy Spirit”, Jena, 1727.
• J. C. Pfeiffer, “On the Godhead of the Holy Spirit”, Jena, 1740.
• G. F. Gude, “On the Martyrs as Witnesses for the Godhead or the Holy Spirit”, Leipsic, 1741.
• J. C. Danhauer, “On the Procession of the Holy Spirit from the Father and the Son”, Strasburg, 1663. J. Senstius, Rostock, 1718, and J. A. Butstett, Wolfenbüttel, 1749. John Schmid, John Meisner, P. Havercorn, G. Wegner, and C. M. Pfaff.

A Obra do Espírito Santo foi discutida em separado pelos seguintes escritores: Anton (“The Holy Spirit Indispensable”); Carsov (“On the Holy Spirit in Conviction”); Wensdorf (“On the Holy Spirit as a Teacher”); Boerner (“The Anointing of the Holy Spirit”); Neuman (“The Anointing which Teaches All Things”); Fries (“The Office of the Holy Spirit in General”); Weiss (“The Holy Spirit Bringing into Remembrance”); Foertsch (“On the Holy Spirit's Leading of the Children of God”); Hoepfner (“On the Intercession of the Holy Spirit”); Beltheim, Arnold, Gunther, Wendler, e Dummerick (“On the Groaning of the Holy Spirit”); Meen (“On the Adoration of the Holy Spirit”), Henning e Crusius (“On the Earnest of the Holy Spirit”).

Os seguintes teólogos Holandeses escreveram sobre o mesmo assunto: Gysbrecht Voetius no seu “Select-Disput” (I., página 466); Sam. Maresius (“Theological Treatise on the Personality and Godhead of the Holy Spirit”) na sua “Sylloge-Disput” (I., página 364); Jac. Fruytier (“The Ancient Doctrine Concerning God the Holy Spirit, True, Proven, and Divine”); exposição de João 15:26, 27; Camp. Vitringa, Jr., (“Duæ Disputationes Academicæ de Natione Spiritus Sancti”) na sua Opuscula.

Durante o presente século, obras sobre este mesmo assunto podem dificilmente serem comparadas com os estudos de John Owen. Notamos as seguintes: Herder (“Vom Paraclet”); Xachei (“Von der Lästerung wider den Heiligen Geist” - Nürnberg, 1875); E. Guers, (“Le Saint-Esprit, Étude doctrinale et pratique sur Sa Personne et Son Oeuvre” - Toulouse, 1865), A. J. Gordon (“Dispensation of the Spirit”).

Esta biografia escassa mostra que tratamento sistemático deficiente é dispensado à Pessoa do Espírito Santo. Estudos sobre a Obra do Espírito Santo são ainda mais escassos. É verdade que há várias dissertações sobre partes separadas da Obra do Espírito Santo, mas ela nunca foi tratada em sua unidade orgânica. Nem mesmo por Guers, que reconhece que seu pequeno livro não merece lugar entre as obras dogmáticas.

Na verdade, Owen ainda não foi ultrapassado, e é, portanto, muito procurado por bons teólogos, sejam clérigos ou leigos. E, todavia, a obra prima de Owen não parece fazer um estudo mais aproximado deste tema excedente. Embora como um campeão imbatível contra os Arminianos e Semi-Arminianos da última metade do século dezessete, sua armadura é muito leve para enfrentar os erros doutrinários da atualidade. Por esta razão, o autor compromete-se a oferecer ao público cristão pensante uma exposição da segunda parte deste tema grandioso, numa forma adaptada aos clamores da época e aos erros do presente. Ele não tratou sobre a primeira parte, a Pessoa do Espírito Santo. Este não é um assunto controverso. A Natureza Eterna do Espírito Santo é de fato confessada ou negada, mas os princípios dos quais a confissão ou a negação são resultado necessário são tão divergentes que torna-se impossível um debate entre o que a confessa e o que a nega. Se jamais adentrassem numa arena eles cruzariam suas lanças no ponto referente aos princípios básicos, e debateriam sobre a Origem da Verdade. E somente após o consenso sobre este tema eles poderiam vir a discutir um assunto especial como o do Espírito Santo. Mas até então, discussão como esta, com eles que negam a Revelação, seria quase que um sacrilégio.

Mas é diferente com a Obra do Espírito Santo. Pois, embora cristãos professos reconheçam esta Obra, e tudo o que ela abrange, e tudo o que dela procede, todavia os vários grupos nos quais eles se dividem representam-na de maneiras muito divergentes. Que diferenças neste ponto, entre Calvinistas e Éticos, Reformados, Kohlbruggianos e Perfeccionistas! As representações dos práticos Sobrenaturalistas, Místicos, e Antinomianos podem dificilmente serem reconhecidas.

Parece-me confuso e impraticável atacar estas opiniões divergentes sobre pontos subordinados. As diferenças nunca deveriam ser discutidas, exceto sistematicamente. Aquele que não tenha primeiro observado, conhecido por completo o campo no qual o Espírito Santo opera, não pode medir com sucesso qualquer parte dele, para a conquista de um irmão seu e para a glória de Deus.

Daí que, deixando as polêmicas de lado quase que por completo, eu me esforcei para apresentar a Obra do Espírito Santo nas suas relações orgânicas, de modo que o leitor possa ser capaz de pesquisar o território inteiro. E ao pesquisar, quem não se surpreende com as dimensões sempre crescentes da Obra do Espírito Santo em todas as coisas que dizem respeito a Deus e ao homem?

Mesmo que honremos o Pai e creiamos no Filho, quão pouco nós vivemos no Espírito Santo! Algumas vezes até nos parece que para a nossa santificação somente é que o Espírito Santo foi acrescentado acidentalmente à grande obra redentora.

Esta é o motivo pelo qual nossos pensamentos são tão pouco ocupados com o Espírito Santo; porque no ministério da Palavra tão pouca honra Lhe é conferida; porque o povo de Deus, quando dobrado em súplicas perante o Trono de Graça, faz dEle tão pouco o objeto da sua adoração. Você sente, involuntariamente, que da nossa piedade, que já é pouca o bastante, Ele recebe uma porção por demais reduzida.

E visto que este é o resultado de uma imperdoável falta de conhecimento e de apreciação da Sua Obra gloriosa em toda a criação, um entusiasmo santo compeliu-me, no poder de Deus, a oferecer aos meus camaradas campeões pela fé que uma vez foi entregue pelos pais, alguma assistência nesse aspecto.

Que o Espírito Santo, cuja Obra divina eu tenho expressado em palavras humanas com língua gaguejante, possa coroar esta empreitada com bênçãos tais que você sinta a Sua Presença invisível mais próxima, e que Ele possa trazer ao seu coração inquieto a mais abundante consolação.

Amsterdam, 10 de Abril de 1888.


Postscript para os leitores Americanos, eu acrescento mais uma observação.

Este trabalho contém polêmicas ocasionais contra o Metodismo, as quais, para os muitos ministros e membros das igrejas chamadas “Metodistas” podem parecer injustas e desnecessárias. Seja, portanto, claramente declarado que a minha controvérsia com o Metodismo não é nunca com estas igrejas em particular. O Metodismo com o que eu contendo, prevaleceu até recentemente em quase que todas as igrejas Protestantes como um fruto prejudicial da “Mudança” no início deste século. Metodismo como aqui inferido é idêntico ao que Mr. Heath, no “The Contemporary Review” (Maio, 1898), criticou como totalmente inadequado para colocar o Protestantismo novamente na cabeça do movimento espiritual.

O Metodismo nasceu do declínio espiritual da Igreja Episcopal da Inglaterra e do País de Gales. Ele surgiu como a reação do subjetivo individual e espiritual contra o poder destrutivo do objetivo na comunidade, como manifesto na Igreja da Inglaterra. Como tal reação era preciosa e indubitavelmente uma dádiva de Deus, no seu desdobramento teria continuado tão salutar como se tivesse retido sua característica de uma reação predominante.

Deveria (o Metodismo) ter considerado a Igreja como uma comunidade, como um poder objetivo, e neste território objetivo deveria ter vindicado o significado da vida espiritual individual e da confissão subjetiva.

Mas falhou ao fazê-lo. Da vindicação dos direitos subjetivos do indivíduo, passou logo ao antagonismo contra os direitos objetivos da comunidade. Isto resultou dogmaticamente na controvérsia sobre a obra objetiva de Deus, em outras palavras, no Seu decreto e na Sua eleição, e em termos eclesiásticos, em antagonismo contra a obra objetiva do ofício, através da confissão. Deu supremacia ao elemento subjetivo no livre-arbítrio do homem e ao elemento individual na decisão “não congregacional” de conflitos na Igreja. Então, não reteve nenhum outro objetivo senão a conversão de pecadores individuais; e por esta obra abandonou o orgânico; e somente reteve o método mecânico.

Como tal, (o Metodismo) celebrou no assim chamado “Reveil” [1] seu triunfo mais glorioso, e penetrou em praticamente todas igrejas Protestantes, e mesmo na Igreja Episcopal, sob o nome de Evangelicalismo ou “Igrejismo Baixo”. Como uma segunda reação contra o segundo declínio das igrejas Protestantes daquela época, este triunfo trouxe, sem dúvida, uma grande bênção.

Mas quando surgiu a necessidade de reduzir esta nova vida espiritual a um princípio definido, sobre o qual construir uma vida cristã Protestante e em oposição global às filosofias não-cristãs e à vida essencialmente mundial e panteísta, e professar estas posições e mantê-las; falhou então miseravelmente. Faltou-lhe princípios conscientes e bem definidos; com o seu individualismo e subjetividade ele não poderia alcançar as questões sociais, e, devido à sua completa falta de unidade orgânica, não poderia formular uma vida independente e global; sim, permaneceu em todos lugares, como um obstáculo a tais formações.

Por esta razão, é absolutamente necessário ensinar claramente as igrejas Protestantes a enxergarem esta sombra escura do Metodismo, enquanto que ao mesmo tempo elas deveriam continuar a estudar o seu precioso significado como reação espiritual.

Daí a minha contenda com o Metodismo e o meu persistente apontar para a necessidade imperativa de vindicar sobre, contra e lado a lado da subjetividade puramente mecânica, os direitos do social orgânico em toda a vida humana; e de satisfazer a necessidade do poder de objetividade na presença de declarações extravagantes de subjetividade. Isto pressiona tudo o mais desde que na teologia Metodista da América a tendência moderna está avançando.

A Obra do Espírito Santo não pode ser deslocada pela atividade do espírito humano.

Kuyper.

Amsterdam, 12 de Abril de 1899

16:52

Existe um lugar para a Arte, no Calvinismo?

Postado por Harone Maestri Mattos

O Calvinismo não Criou Estilo Próprio Exatamente por seu Estágio Superior de Desenvolvimento Religioso

Assim, por si só, deve ser negada a possibilidade que um estilo de arte próprio possa originar-se independentemente da religião; mas mesmo se fosse de outro modo, e este é meu segundo argumento, ainda seria ilógico exigir do Calvinismo uma tendência secular como esta. Pois, como vocês podem desejar que um movimento de vida, que encontrou a fonte de seu poder na acusação de todos os homens e de toda vida humana perante a face de Deus, tivesse visto o impulso, a paixão e a inspiração para sua vida fora de Deus em um campo tão excessivamente importante como este das poderosas artes? Portanto, não resta nenhuma sombra de realidade na reprovação desdenhosa de que a não criação de um estilo arquitetônico próprio é uma prova conclusiva da pobreza artística do Calvinismo. Somente sob os auspícios de seu princípio religioso o Calvinismo poderia ter criado um estilo de arte geral e exatamente porque tinha alcançado um estágio muito mais alto de desenvolvimento religioso, seu próprio princípio proibia a expressão simbólica de sua religião em formas visíveis e sensoriais.

Existe um Lugar para Arte, no Calvinismo?

Por isso, a questão deve ser formulada de modo diferente. E isso nos conduz ao nosso segundo ponto. A questão não é se o Calvinismo com seu ponto de vista superior produziu o que não era mais permitido criar, a saber, um estilo de arte geral próprio dele, mas qual interpretação sobre a natureza da arte flui de seu princípio. Em outras palavras, há na biocosmovisão do Calvinismo um lugar para a arte, e se sim, qual lugar? Seu princípio é oposto a arte, ou, se julgado pelos padrões do princípio calvinista, um mundo sem arte perderia uma de suas esferas ideais? Eu não falarei agora do abuso, mas simplesmente do uso da arte. Em cada campo, a vida é obrigada a respeitar as dimensões desse campo. A transgressão dos domínios dos outros é sempre ilegal; e nossa vida humana atingirá sua mais nobre harmonia somente quando todas as suas funções cooperarem na justa proporção para nosso desenvolvimento geral. A lógica da mente não pode desprezar os sentimentos do coração, nem o amor pela beleza deveria silenciar a voz da consciência. Por mais santa que a Religião possa ser, ela deve guardar-se dentro de seus próprios limites, para que não se degenere em superstição, insanidade ou fanatismo ao atravessar suas linhas. E, do mesmo modo, a tão exuberante paixão pela arte que despreza o sussurro da consciência, deve resultar num desacordo desagradável completamente diferente do que os gregos exaltavam em seus kalokagathos.[1]


Calvino se Opôs ao Uso Ilegítimo da Arte

O fato, por exemplo, de que o Calvinismo se dispôs contra toda diversão ímpia com a honra da mulher, e estigmatizou toda forma de prazer artístico imoral como uma degradação, encontra-se portanto fora de nosso alcance. Tudo isto denuncia adequadamente o abuso, embora não tenha qualquer peso quanto a questão do uso legítimo. E o próprio Calvino não se opôs ao uso legítimo da arte, mas encorajou e até mesmo recomendou, como suas próprias palavras prontamente provam. Quando a Escritura menciona a primeira aparição da arte nas tendas de Jubal, que inventou a harpa e o órgão, Calvino recorda-nos enfaticamente que esta passagem trata dos “excelentes dons do Espírito Santo”. Ele declara que, quanto ao instinto artístico, Deus tinha enriquecido Jubal e sua posteridade com raros dons naturais. E, abertamente, declara que esses poderes inventivos da arte são o mais evidente testemunho do favor divino. Ele declara mais enfaticamente ainda, em seu comentário sobre Êxodo, que “todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas”.


As Artes Procedem do Espírito Santo

Segundo Calvino, nós devemos estas coisas preciosas da vida natural originalmente ao Espírito Santo. Em todas as Artes Liberais, tanto nas mais como nas menos importantes, o louvor e a glória de Deus devem ser acentuadas. As artes, diz ele, foram dadas para nosso conforto, nesse nosso estado deprimido de vida. Elas reagem contra a corrupção da vida e da natureza pela maldição. Quando seu colega, o Prof. Cop, levantou armas em Genebra contra a arte, Calvino propositadamente instituiu medidas, como ele escreve, para restaurar esse homem louco ao bom senso e a razão. Calvino declara ser indigno de refutação o preconceito cego contra a escultura com base no Segundo Mandamento. Ele exalta a música como um poder maravilhoso para comover corações e para dignificar tendências e princípios morais. Entre os excelentes favores de Deus para nossa recreação e prazer, ela ocupa em sua mente o posto mais alto. E mesmo quando a arte se rebaixa para tornar-se o instrumento de mero entretenimento para o povo, afirma que este tipo de prazer não lhe deveria ser negado.

Em vista de tudo isto, podemos dizer que Calvino apreciava a arte em todas as suas ramificações como um dom de Deus, ou mais especialmente, como um dom do Espírito Santo; que ele entendeu plenamente os profundos efeitos produzidos pela arte sobre a vida das emoções; que ele apreciava o fim pelo qual a arte fora dada, a saber, que por ela poderíamos glorificar a Deus, dignificar a vida humana, e beber na mais alta fonte de prazeres, sim até mesmo no esporte comum; e, finalmente, que longe considerar a arte como simples imitação da natureza, ele lhe atribuiu a nobre vocação de desvendar para o homem uma realidade mais alta do que foi oferecida a nós pelo mundo pecaminoso e corrupto.


A Arte Revela uma Realidade Superior à Oferecida pelo Mundo

Ora, se isso implicava em nada mais que a interpretação pessoal de Calvino, certamente seu testemunho não teria valor conclusivo para o Calvinismo em geral. Mas quando observamos que o próprio Calvino não era artisticamente desenvolvido, e que por isso ele deve ter inferido seu breve sistema de Estética [2] de seus princípios, ele pode ser reconhecido como tendo exposto a consideração calvinista sobre a arte como tal. Para ir direto ao coração da questão, comecemos com a última declaração de Calvino, a saber, que a arte revela para nós uma realidade mais alta do que é oferecida por este mundo pecaminoso.

Vocês estão familiarizados com a questão, já mencionada, se a arte deveria imitar a natureza ou se deveria transcendê-la. Na Grécia uvas eram pintadas com tal precisão que os pássaros eram iludidos por sua aparência e tentavam comê-las. E esta imitação da natureza parece ter sido o ideal maior da escola Socrática. Aqui, encontra-se a verdade muitas vezes esquecida pelos idealistas, de que as formas e relações exibidas pela natureza são e sempre devem ser as formas e relações fundamentais de toda realidade atual, e uma arte que não observa as formas e movimentos da natureza nem escuta seus sons, mas arbitrariamente gosta de flutuar acima dela, se degenera num bárbaro jogo de fantasia.

Mas por outro lado, toda interpretação idealista da arte deveria ser justificada em oposição à puramente empírica, sempre que a empírica confina sua tarefa a mera imitação. Por isso, muitas vezes é cometido na arte o mesmo equívoco cometido pelos cientistas quando limitam sua tarefa científica à mera observação, computação e relatório acurado dos fatos. Pois do mesmo modo como a ciência deve subir dos fenômenos para a investigação de sua ordem inerente, a fim de que o homem, enriquecido pelo conhecimento desta ordem, possa reproduzir espécies de animais, flores e frutos mais nobres do que a própria natureza poderia produzir, assim a vocação da arte é, não simplesmente observar cada coisa visível e audível, a fim de apreendê-la e reproduzi-la artisticamente, mas muito mais, descobrir naquelas formas naturais a ordem da beleza, e enriquecido por este conhecimento superior, produzir uma beleza mundial que transcende a beleza da natureza.


O Calvinismo Compreendeu a Influência do Pecado

Isto é o que Calvino afirmou: a saber, que as artes exibem dons que Deus colocou à nossa disposição, agora que a verdadeira beleza fugiu de nós como triste conseqüência do pecado, a verdadeira beleza fugiu de nós. Sua decisão aqui depende inteiramente de sua interpretação do mundo. Se vocês consideram o mundo como a realização do bem absoluto, então não há nada superior, e a arte não pode ter outra vocação senão copiar a natureza. Se, como o panteísta ensina, o mundo segue da imperfeição para a perfeição por um processo lento, então a arte torna-se a profecia de uma fase adicional da vida por vir. Porém, se vocês confessam que o mundo outrora foi belo, mas que pela maldição tornou-se desfeito e por uma catástrofe final deve passar para seu pleno estado de glória, superando até mesmo a beleza do paraíso, então a arte tem a tarefa mística de lembrar-nos, em suas produções, da beleza que foi perdida e de antecipar seu perfeito brilho vindouro. Este último caso mencionado é a confissão calvinista. O Calvinismo compreendeu, mais claramente do que Roma, a influência horrenda e corruptora do pecado; isto o levou a maior apreciação da natureza do paraíso na beleza da justiça original; e guiado por esta encantadora recordação o Calvinismo também profetizou uma redenção da natureza exterior, a ser realizada no reino da glória celestial. A partir deste ponto de vista, o Calvinismo honrou a arte como um dom do Espírito Santo e como uma consolação em nossa vida atual, habilitando-nos a descobrir em e atrás desta vida pecaminosa um pano de fundo mais rico e mais glorioso. Considerando as ruínas desta criação outrora tão maravilhosamente bela, para o calvinista a arte chama a atenção tanto para as linhas do plano original ainda visíveis quanto, o que é ainda melhor, para a esplêndida restauração pela qual o Supremo Artista e Construtor Mestre um dia renovará e até mesmo intensificará a beleza de sua criação original.


A Arte não Pode Originar-se do Diabo

Portanto, se a interpretação pessoal de Calvino concorda inteiramente com a confissão calvinista sobre este ponto principal, o mesmo se aplica ao próximo ponto em questão. Se para o Calvinismo a soberania de Deus é e continua sendo seu imutável ponto de partida, então a arte não pode originar-se do Diabo; pois Satanás é destituído de todo poder criativo. Tudo que ele pode fazer é abusar das boas dádivas de Deus. Nem pode originar-se com o homem, pois, sendo ele mesmo uma criatura, o homem não pode senão empregar os poderes e dons colocados por Deus à sua disposição. Se Deus é e continua sendo soberano, então a arte não pode produzir nenhum encantamento exceto de acordo com as ordenanças que Deus ordenou para a beleza, quando ele, como o Supremo Artista, chamou este mundo à existência.


Deus Soberano Confere os Dons Artísticos

E além disso, se Deus é e continua sendo soberano, então ele também confere estes dons artísticos a quem ele quer, primeiramente, então, à posteridade de Caim e não a de Abel; não como se a arte fosse Cainita, mas a fim de que aquele que pecou contra os mais altos dons devesse ao menos, como Calvino tão belamente disse: nos menores dons da arte receber algum testemunho do favor Divino. Esta habilidade e capacidade artística como tal, pode ter lugar na natureza humana, nós a devemos à nossa criação segundo à imagem de Deus. No mundo real, Deus é o Criador de todas as coisas; o poder de produzir coisas realmente novas é seu somente, e portanto continua a ser sempre o artista criador. Como Deus, somente ele é o original, nós somos apenas os portadores de sua Imagem.

Nossa capacidade para criar segundo ele e segundo o que ele criou, pode consistir somente na criação imaginária da arte. Assim nós, à nossa maneira, podemos imitar o trabalho manual de Deus. Nós criamos um tipo de cosmos em nosso monumento Arquitetônico; embelezamos formas da natureza na Escultura; em nossa Pintura reproduzimos a vida, animada por linhas e cores; transfundimos as esferas místicas em nossa Música e em nossa Poesia. E tudo isto porque a beleza não é o produto de nossa própria fantasia, nem de nossa percepção subjetiva, mas tem uma existência objetiva, sendo ela mesma a expressão de uma perfeição Divina.


Arte e a Criação

Após a criação, Deus viu que tudo era bom. Imagine que cada olho humano fosse fechado e cada ouvido humano tapado, ainda assim a beleza permanece, e Deus a vê e a ouve, pois, não somente “seu eterno poder”, mas igualmente sua “divindade”, desde o momento da criação têm sido percebidos em sua criação, tanto espiritual como corporalmente. Um artista pode observar isto em si mesmo. Se ele compreende que sua própria capacidade artística depende de ter um olho para a arte [senso estético], deve necessariamente chegar à conclusão de que “o olho” original para a arte está no próprio Deus, cuja capacidade para produção artística é plena, e segundo esta imagem foi feito o artista entre os homens.

Sabemos isto a partir da criação ao nosso redor, do firmamento que forma um arco sobre nós, do luxo abundante da natureza, da riqueza de formas no homem e no animal, do som das corredeiras e do cântico do rouxinol; como pois toda esta beleza poderia existir exceto se criada pelo Único que preconcebeu a beleza em seu próprio ser e a produziu de sua própria perfeição Divina? Assim, vocês vêem que a soberania de Deus e nossa criação segundo sua semelhança, necessariamente levaram a esta interpretação elevada da origem, da natureza e da vocação da arte, como adotada por Calvino, e ainda aprovada por nosso próprio instinto artístico. O mundo dos sons, o mundo das formas, o mundo das cores e o mundo das idéias poéticas não pode ter outra fonte senão Deus; e é nosso privilégio, como portadores de sua imagem, ter uma percepção deste mundo belo, para reproduzir artisticamente, para gozá-lo humanamente.

16:48

Eva, a Mãe de Todos

Postado por Harone Maestri Mattos

“Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Timóteo 2:13,14)


Leia 1 Timóteo 2:9-15

Eva significa “mãe da vida”, ou seja, “mãe de todos os que têm vida”. Eva personifica todo o feminino na raça humana. Nela há escondido, como num grão ou semente, toda a graça e independência de uma mulher, sua susceptibilidade a Satanás, porém também sua susceptibilidade à fé. Adão personifica todo o masculino, e em geral o humano. O mundo hoje zomba da “costela de Adão”, porém graças a este relato, aparentemente absurdo, o crente mais simples da igreja de Deus entende a relação entre os homens e as mulheres melhor do que o mais profundo filósofo, que medita sobre a base de seus preconceitos pessoais.

Eva foi criada de Adão. Adão deve ser considerado como a origem e o fundo do qual ela apareceu. Porém isto não significa que Adão a fez. Ainda que ela tenha procedido dele, foi Deus quem a criou. Por esta razão, ela também, antes de aparecer sobre a terra, existia no pensamento de Deus. Deus a viu, e porque a viu, a criou. Eva é o produto desta criação divina.

Eva nunca foi uma criança, uma filha ou uma jovem. No instante da criação, ela estava diante de Adão no Paraíso, resplandecente e em plena maturidade feminina. Era uma mulher completa, cujas perfeições não eram devidas à cultura ou tradição, mas eram o produto da criação divina. A mulher não tem, pois, motivo para se queixar de não ser um homem, pois ela, como ele, é o resultado da atividade divina. O pensamento de Deus está expresso em seu ser feminino. É verdade que Adão existiu primeiro. Ele foi seu cabeça e a raiz da qual ela procedeu. Porém Adão não era viável sem ela. Estava em necessidade, e ela era a ajuda que necessitava. Deus a criou como uma ajuda para ele. Na realidade, a ajuda e o sustento devem ser mútuos.

Satanás viu imediatamente que Adão podia ser seduzido mais facilmente através de Eva. Satanás reconheceu sua amabilidade e graça, porém também sua fragilidade natural. Ele se deu conta que ela poderia ser tentada. “Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”, diz o apóstolo Paulo. A mulher representa a graça humana em alto grau. O belo na natureza lhe entusiasma mais do que ao homem. Sua sensibilidade é mais viva e impressionável pelo concreto e o atrativo. Não é, instintivamente, menos santa ou mais pecadora. Porém, era mais suscetível à tentação, porque estava constitucionalmente menos adaptada para oferecer resistência do que ele. Porém, não transgrediu sozinho, mas arrastou a Adão, com ela, ao pecado. Ao invés de perdê-la nas mãos de Satanás, Adão se deixou atrair a ele por causa dela. A transgressão de Eva consiste no “pecado com o qual fez Adão pecar”.

Devido a ele, a felicidade de Eva durou muito pouco. Tropeçou em seu primeiro passo. Adão não lhe estendeu a mão para resguardá-la, mas se deixou arrastar com ela. Agora tinha que abandonar este magnífico Paraíso para entrar num mundo de espinhos e abrolhos. A angústia que precede o dar à luz aos filhos afetou seu ser gravemente. Perdeu a confiança em si mesma que Deus lhe havia dado. Agora estaria sujeita ao domínio de outro.

Não sabemos quanto tempo Eva viveu, porém é provável que tenha vivido centenas de anos. Seus dias devem ter sido tediosos e cansativos, ocasionalmente cheios de dor. Havia sido gloriosa um tempo e tinha vivo, durante um curto período somente, na formosura do Paraíso. Ao ver-se lançada num mundo em que nada tinha sido provido para a mulher, deve ter sido um contraste terrível. Eva foi apartada de sua herança. Sua plenitude feminina foi completamente devastada.

Contudo, no profundo da alma desta mulher, Deus semeou a semente de uma fé gloriosa, e por meio dessa, permitiu que se levantasse novamente um céu diante dela. A semente desta mulher tentada haveria de esmagar a cabeça do tentador. Eva concentrou toda sua alma nessa promessa. De fato, quando Caim nasceu dela, supôs que este filho já era a semente prometida e exclamou: “Alcancei do SENHOR um varão”. Pobre Eva! A desilusão que se seguiu a esta esperança, quando depois dos anos a terra absorveu o sangue de Abel, deve ter sido muito amarga.

Não obstante, depois dos séculos, os anjos de Deus reconheceram a semente dessa mulher no Filho de Maria. O Filho de Maria também era o filho de Eva. Nosso privilégio consiste em que possamos reconhecer a este Menino de Belém em sua Manjedoura. Então, talvez relutantes, mas com uma clara esperança, possamos lembrar de Eva. Pensando nela, no Menino e em nós, podemos dizer: Eva, a “Mãe de todos”.


Nota: Abraham Kuyper (1834-1920), o gênio versátil do Calvinismo Holandês. Autor de mais de 200 livros, muitos deles cobrindo até três ou mais volumes, Kuyper proclamou ao mundo, com uma clareza e uma frescura talvez incomparáveis a seu tempo, a relevância do Calvinismo como o único princípio regulador genuíno para o todo da vida. Advogado, Teólogo, Escritor, Fundador da Universidade Livre da Amsterdã, Ex-Primeiro ministro da Holanda e sobre tudo... Pastor Evangélico.

16:33

Abraham Kuyper (1837 - 1920)

Postado por Harone Maestri Mattos

O dr. Abraham Kuyper nasceu em Maassluis, na Holanda, em 29 de Outubro de 1837. Seus pais eram o Rev. Jan Hendrik e Heriette Huber Kuyper. Em Maassluis, e em Middelburg, onde seu pai foi chamado em 1849, freqüentou a escola. Seus professores, nos é dito, tomaram-no a princípio como um menino lento no entendimento. Eles devem ter mudado sua opinião quando, com a precoce idade de doze anos, estava habilitado a entrar no Ginásio em Middelburg. No tempo oportuno foi matriculado na Universidade de Leyden, na qual foi graduado com a mais alta honra. Foi também aqui que obteve seu Doutorado em Teologia Sagrada em 1863, quando estava com cerca de vinte e seis anos de idade.

Um ano mais tarde, começou seu ministério em Beesd; foi então chamado para Utrecht, e dali, em 1870, para Amsterdam. Em 1872, tornou-se Editor Chefe do De Standaard (O Estandarte), um jornal diário, e o órgão oficial do partido Anti-Revolucionário, que na política representa o contingente protestante da nação holandesa. Pouco depois ele assumiu a função de editor do De Heraut (O Arauto), um jornal semanal distintivamente cristão, publicado às sextas-feiras. Por mais de quarenta e cinco anos, ocupou ambas exigentes posições com extraordinário poder e vigor.

Em 1874, foi eleito membro da Casa Baixa do Parlamento, [1] função que exerceu até 1877. Em 1880, fundou a Universidade Livre de Amsterdam, a qual tomava a Bíblia como a base incondicional sobre a qual deveria ser erguida toda a estrutura do conhecimento humano em cada departamento da vida.

Então seguiram-se vinte anos de árduo labor, na Universidade e fora dela, quando alguns de seus maiores tratados foram escritos, cobrindo um período que pode bem ser considerado como tendo exercido uma influência muito importante na história eclesiástica e política de seu país. Foi por seu labor quase sobre-humano, não menos do que por sua força e nobreza de caráter, que deixou “pegadas nas areias do tempo” com tal indelével clareza que em 1907, quando de seu 70 º aniversário foi realizada uma celebração nacional, sendo dito: “A história da Holanda na igreja, no Estado, na imprensa, na escola e nas ciências dos últimos quarenta anos, não pode ser escrita sem a menção de seu nome em quase todas as páginas, pois durante este período a biografia do dr. Kuyper é, numa extensão considerável, a história da Holanda.”

Em 1898, ele visitou os Estados Unidos da América, onde proferiu as “Palestras Stone” no Seminário Teológico de Princeton. Foi então que a Universidade de Princeton conferiu a ele o Doutorado em Direito (São estas palestras que estão contidas nas páginas deste presente volume).

Após seu retorno à Holanda, ele reassumiu seu trabalho como líder do partido Anti-Revolucionário, até que, em 1901, foi convocado pela Rainha Wilhelmina para formar um Ministério. Serviu como primeiro-ministro até 1905. A seguir, gastou mais de um ano em viagem, um relato descritivo da qual apareceu numa obra de dois volumes, Om de Oude Wereld-Zee (Ao Redor do Velho Mar Mundial), da qual toda edição foi vendida antes de ser impressa.

Depois disto, o dr. Kuyper residiu em Haia como Ministro de Estado, na opinião pública a figura mais importante na terra, e em alguns aspectos sem igual no mundo. Aos 75 anos de idade, começou uma série de artigos semanais na coluna do De Heraut: “Van de Voleinding” (Do fim do Mundo), 306 artigos ao todo. A série levou seis anos para ser completada. De Maasbode , uma publicação Católica Romana dos Países Baixos, refere-se a esta obra como, “a mais excepcional e sem rival em toda literatura sobre o assunto.” Referências ao fim do mundo são delineadas através de todos os livros da Bíblia, cuidadosamente expostas, enquanto o Apocalipse de João é tratado seção por seção. Quando estava com 82 anos, o velho dr. Kuyper estava traçando planos para outra grande obra sobre O Messias , mas o fim veio em 8 de Novembro de 1920.

Durante todos estes anos sua obra foi multiforme a um grau estarrecedor. Como tem sido dito: “Nenhum departamento do conhecimento humano era estranho a ele.” E quer o tomemos como estudante, pastor ou pregador; como lingüista, teólogo ou professor universitário; como líder de partido, organizador ou estadista; como filósofo, cientista, publicista, crítico ou filantropo – há sempre “algo incompreensível nos poderosos labores deste lutador incansável; sempre algo tão incompreensível quanto o gênio sempre é.” Mesmo aqueles que discordaram dele, e foram muitos, o honraram como “um oponente de dez cabeças e umas cem mãos.” Aqueles que compartilharam sua visão e seus ideais o apreciaram e o amaram “como um dom de Deus para nossa época.”

Qual era o segredo deste poder quase sobre-humano?

Em 1897, no 25º aniversário de sua função como editor do De Standaard , o dr. Kuyper disse: “Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este: Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação dêem testemunho, até a nação novamente render homenagens a Deus.”

Poucos homens tiveram um ideal como este diante de si. Poucos homens foram tão obedientes às exigências de um tal propósito de vida como ele, pois literalmente deu seu próprio corpo, alma e espírito a este alto chamado. Ele procurava administrar bem seu tempo. Cada hora do dia e da noite tinha sua própria tarefa. Seus escritos contam mais de duzentas obras, muitas das quais de três e quatro volumes cada, e cobrem uma série extraordinária de assuntos.

Como homem, apreciava singularmente uma palavra ou ato de bondade por parte dos outros. O escritor desta nota fala aqui de uma experiência pessoal. O dr. Kuyper conhecia algo da santa arte de amar. Orgulhava-se de ser um homem do povo. É lembrado por muitos com admiração e gratidão, que embora pressionado por seus labores multifários, [2] nunca recusou audiência a qualquer um que viesse a ele para conselho ou ajuda.

O dr. Kuyper nunca reivindicou originalidade. Sua vida e labores não podem ser explicados somente por ele mesmo. Nos restringiremos aqui às correntes ocultas mais profundas de sua vida espiritual, como o segredo de seu poder fenomenal.

Nos seus primeiros anos, a vida religiosa em seu país estava em decadência. “A vida eclesiástica estava fria e formal. A religião estava quase morta. Não havia Bíblia nas escolas. Não havia vida na nação.”

Mas não eram raros os sinais de coisas melhores por vir. Já em 1830, Groen van Prinsterer, um membro do Parlamento começou a protestar contra o espírito dos tempos. “Isto produziu um reavivamento da proclamação do evangelho – que por natureza todos os homens são pecadores necessitando do sangue expiador de Cristo. Isto foi encarado como grande ofensa por muitos. Não demorou muito até que os evangélicos não fossem mais tolerados. Não era a irreligião que era procurada, mas uma religião que agradasse a cada um, inclusive os judeus.”

Por isso, quando o assunto deste esboço estava com um estudante universitário, não era de se estranhar que ele não sentisse inclinação para o ministério do evangelho. Ele disse que não tinha simpatia por uma igreja que espezinhou sua própria honra; nem por uma religião que era apresentada por uma igreja como essa. Ele acompanhou a corrente moderna, e entusiasticamente tomou parte em aplaudir o professor Rauwenhoff, que abertamente negou a ressurreição corporal de Jesus.

Uma série de experiências, contudo, produziu profunda impressão sobre o jovem erudito.

A Universidade de Groningen ofereceu um prêmio para o melhor ensaio sobre João de Lasco, o grande reformador polonês. Por recomendação de seus professores, Kuyper resolveu tornar-se um dos competidores. Imagine seu desapontamento quando após uma cuidadosa pesquisa em todas as grandes bibliotecas de seu país e nas de toda Europa não conseguiu o material necessário para o trabalho. Como último recurso, o dr. de Vries, um dos professores em Leyden, que tinha adquirido um profundo interesse pelo promissor jovem erudito, recomendou-lhe visitar seu pai em Haarlem (do dr. de Vries), visto que era um excelente estudante de História e tinha uma extensa biblioteca. Ele foi e ouviu o venerável pregador dizer que olharia em seus livros, mas que não tinha lembrança de jamais ter visto uma das obras de Lasco em sua coleção. Uma semana depois Kuyper retornou para a entrevista. Deixe-o contar por si mesmo a experiência daquela hora:

“Como eu posso fazer vocês participarem de meus sentimentos quando, sendo admitido ao venerável pregador, eu o ouvi dizer-me do modo mais simples, enquanto apontava para uma rica coleção de duodécimos [3] empilhados sobre uma mesa ao lado: ‘Isto é o que eu encontrei.' Eu mal pude acreditar em meus olhos. Tendo pesquisado em vão todas as bibliotecas na Holanda; tendo cuidadosamente examinado os catálogos das grandes bibliotecas em toda a Europa; tendo lido muitas vezes nas antologias e nos registros de livros raros nos quais os títulos das obras de Lasco estavam simplesmente copiados, sem as próprias obras jamais terem sido vistas; que suas obras, se ainda existe alguma, são extremamente raras; que a maioria delas, é quase certo, está perdida; que com uma possível exceção de duas ou três, ninguém as têm tido nas mãos por mais de duzentos anos – e então, como por um milagre, ser colocado face a face com a mais rica coleção Lasciana que poderia ser encontrada em qualquer biblioteca na Europa. Encontrar este tesouro, que era o ‘ser ou não ser' de meu estimado ensaio com um homem que tinha sido recomendado por um amigo fiel, mas que ainda não sabia que o tinha em sua posse e que a apenas uma semana atrás simplesmente mal se lembrava do nome Lasco – com toda sinceridade, quem em sua própria experiência deve ter tido uma surpresa como esta, conhecer o que significa ver um milagre divino confortá-lo em seu caminho.”

Seria desnecessário dizer que ele ganhou o prêmio. Mas a experiência fez mais – “ela o fez lembrar de Deus.” Ela lançou uma dúvida sobre seu racionalismo. Ele não poderia mais negar que havia algo como “o dedo de Deus.”

Outra experiência veio a ele por ocasião da leitura da famosa novela inglesa, O Herdeiro de Redcliffe, de Charlotte Yonge. Ele devorou o livro. E este deu-lhe uma impressão sobre a vida da igreja na Inglaterra, tal como estava faltando, quase completamente, à igreja na Holanda naquele tempo. Isto o colocou em contato com o profundo significado dos sacramentos, com o caráter impressionante da adoração litúrgica e com o que ele usou mais tarde para falar como “O Livro Anotado de Oração.” Mas, além e acima disso, ele sentiu em sua própria alma um reconhecimento irresistível da realidade de cada experiência espiritual pela qual o herói do livro, Filipe de Norville, passou. A total autocondenação do homem quebrantado de coração, de fato sua completa auto-aversão, o brilhante jovem estudante aplicou a si mesmo; isso tornou-se para ele um poder de Deus para a salvação.

Ponderando sobre essa experiência ele escreve: “O que minha alma passou naquele momento, somente vim a entender plenamente mais tarde; mas todavia naquela hora, não, naquele próprio momento, aprendi a desprezar o que anteriormente admirava, e a procurar o que anteriormente rejeitava. Vamos parar por aqui. Vocês conhecem o caráter permanente da impressão de uma experiência como esta; o que a alma encontra num conflito como este pertence àquele algo eterno, que apresenta-se para a alma anos mais tarde, forte e claramente definido, como se tivesse acontecido ontem.”

Mas, abaixo de Deus, foi o povo rural de sua primeira paróquia o instrumento para guiá-lo àquela plenitude de vida espiritual para a qual suas primeiras experiências apontavam. À medida que ministrava-lhes, admiravam seus talentos; e logo aprenderam a amá-lo pelo que era; mas colocaram-se sinceramente em oração conjunta e individual por sua inteira conversão a Cristo. “E,” como Kuyper escreve mais tarde, “sua fiel lealdade tornou-se uma bênção para meu coração, a ascensão da estrela da manhã da minha vida. Eu tinha sido tocado, mas não tinha ainda encontrado a Palavra de reconciliação. Em sua linguagem simples, trouxeram-me isto de forma absoluta, a única coisa na qual minha alma pode repousar. Eu descobri que as Santas Escrituras não somente fazem-nos encontrar a justificação pela fé, mas também mostram o fundamento de toda vida humana, as santas ordenanças que devem governar toda existência humana na Sociedade e no Estado.”

Assim começou sua vida cristã. Na cruz ele fez a grande rendição de si mesmo ao seu Salvador e ao seu serviço. “Dar testemunho de Cristo” tornou-se a paixão de sua vida: que Cristo é Rei em cada departamento da vida e a atividade humana era a diretriz que ele manteve soando em todos os seus escritos, discursos e labores. Quer como teólogo ou como estadista, como um líder na política, como presidente do sindicato cristão, como promotor da educação cristã, tudo foi feito com a ardente convicção de que: “Cristo governa não simplesmente pela tradição do que ele outrora foi, falou, fez e suportou; mas por um poder vivo que ainda agora, assentado como ele está à mão direita de Deus, exerce sobre terras e nações, gerações, famílias e indivíduos.”

Assim, o encontro de alguns livros perdidos, a leitura de uma novela, o ensino de um povo inculto, são as experiências que explicam, em parte, a grande obra do dr. Kuyper.

Quanto mais uma pessoa conhece o vasto escopo do variado labor desse grande homem, tanto mais profundamente impressionado fica com o extraordinário significado da produção devocional e mística de sua caneta. Profunda erudição teológica, grande habilidade política, perspicácia intelectual extraordinária em qualquer linha em geral não é tido ser compatível com a fé simples como de uma criança, discernimento místico e doçura de alma. Mas, nas palavras de um crítico de sua obra-prima devocional, Estar Perto de Deus , “Este livro de meditações refuta a idéia de que um teólogo profundo não pode ser um cristão afetuoso.” O próprio autor conta a história: “A comunhão de estar perto de Deus deve tornar-se realidade, na realização plena e vigorosa de nossa vida. Deve penetrar e dar cor a nossos sentimentos, nossas percepções, nossas sensações, nossos pensamentos, nossa imaginação, nossa vontade, nosso agir, nosso falar. Não deve colocar-se como um fator estranho em nossa vida, mas deve ser a paixão que inspira por toda existência.”

Na busca desse ideal, o dr. Kuyper gastou tempo para adicionar ao seu grande trabalho a produção de meditações devocionais toda semana. Ele escreveu mais de duas mil delas. São de um caráter inteiramente único. É dito sobre elas que formam uma literatura por si mesmas, e estão em sintonia com as melhores obras dos místicos holandeses, tais como Johannes Ruysbroek, Cornelius Jansinius, e Thomas de Kempis.

Com vigor quase imbatível, o dr. Kuyper continuou seu labor até bem perto do fim. Assistindo aos seus últimos momentos de vida, um amigo e colega perguntou-lhe: “Eu direi ao povo que Deus tem sido seu Refúgio e Fortaleza até o fim?” Embora fraco, a resposta veio imediatamente num distinto sussurro: “Sim, totalmente.”