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10:30

Perseguições nos Vales de Piemonte

Postado por Harone Maestri Mattos

Perseguições nos Vales de Piemonte no Século XVII

I Parte

“E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram” (Apocalipse 6:9–11).

Giovanni Pelanchion, por recusar tornar-se papista, foi amarrado por uma perna à cauda de uma mula e, arrastado pelas ruas de Lucerna, em meio às aclamações de uma multidão desumana, que não parava de apedrejá-lo e de gritar: “Está possuído pelo demônio, pelo que nem o apedrejamento e nem o fato de ser arrastado pelas ruas o matarão, porque o demônio o mantém vivo”. A seguir, levaram-no ao rio, onde cortaram-lhe a cabeça e a deixaram junto com o seu corpo sem sepultura.

Magdalena, filha de Pedro Fontaine, uma formosa menina de dez anos de idade, foi violentada e assassinada pelos soldados. Outra menina com aproximadamente a mesma idade foi assada viva em Vila Nova; e uma pobre mulher, ao ouvir que os soldados iam em direção à sua casa, tomou o berço em que o seu bebê dormia e correu em direção ao bosque. Mas os soldados a viram e perseguiram-na; para que pudesse fugir mais rapidamente, ela pôs o filho no chão, e os soldados, assim que alcançaram a criança, assassinaram-na. Retomaram a perseguição e encontraram a mãe em uma gruta. Violentaram-na primeiro e, a seguir, esquartejaram-na.

Jacob Michelino, principal presbítero da igreja de Bobbio, e vários outros protestantes, foram pregados por meio de garfos fixados em seus ventres, e deixaram-nos expirar em meio às mais horrendas dores.

A Giovanni Rostagnal, um venerável protestante de mais de oitenta anos de idade, foram cortados o nariz e as orelhas, aviltaram-lhe as partes carnosas do corpo e fizeram-no sangrar até a morte.

A sete pessoas, Daniel Seleagio e sua mulher, Giovanni Durant, Lodwich Durant, Bartolomeu Durant, Daniel Revel e Paulo Reynaud, encheram a boca de cada um com pólvora, a qual, inflamada, fez com que suas cabeças voassem em pedaços.

Jacob Birone, mestre de Rorata, recusou-se a mudar de religião, e foi então completamente despido; depois de exibi-lo tão indecentemente, arrancaram-lhe as unhas dos dedos dos pés e das mãos com tenazes incandescentes e perfuraram-lhe as mãos com a ponta de um punhal. Em seguida, amarram-no na altura da cintura com urna corda, e foi levado pelas ruas com um soldado de cada lado. Ao chegar a cada esquina, o policial da direita lhe fazia um corte na carne e o da esquerda o golpeava, e ambos lhe perguntavam: “Irás à missa?”, “Irás à missa?”. Ele respondia “não” . Finalmente, o levaram a uma ponte, onde lhe cortaram a cabeça, e a lançaram, juntamente com o corpo, ao rio.

Paulo Garnier, um protestante muito piedoso, arrancaram os olhos; em seguida, o esfolaram vivo e, após esquartejá-lo, os seus membros foram postos em quatro das principais casas de Lucerna. Suportou estes sofrimentos com a paciência exemplar, ofereceu louvores a Deus enquanto foi capaz de falar e deu clara evidência de que confiança e resignação podem ser inspiradas por uma boa consciência.

No Século XII, iniciaram-se as primeiras perseguições na Itália, a mando do pontífice de Roma, Adriano, um inglês que na ocasião era o papa. Estas foram as causas que levaram à perseguição: Um erudito e excelente orador da Brescia, chamado Agnaldo, chegou a Roma, e pregou abertamente contra as corrupções e inovações que se infiltraram na Igreja. Os seus discursos eram tão plenos e consistentes, e exalavam um espírito tão puro de piedade, que os senadores e muitos do povo aprovaram e admiravam grandemente as suas doutrinas.

Este fato enfureceu a Adriano de tal maneira, que determinou a saída de Arnaldo da cidade imediatamente. Porém, o pregador do Evangelho não obedeceu, porque os senadores e alguns dos principais do povo puseram-se a seu lado e resistiram à autoridade papal.

Daniel Cardon, de Rocappiata, preso por alguns soldados, cortaram-lhe a cabeça, fritaram a carne de seu peito e a comeram.

Duas pobres anciãs cegas que viviam em St. Giovanni foram queimadas vivas; e a viúva de La Torre, juntamente com sua filha, foi levada ao rio, onde foram apedrejadas até a morte.

Pablo Giles, que tentava fugir de uns soldados, ao ser baleado, foi ferido no pescoço; a seguir, cortaram-lhe o nariz, quebraram-lhe o maxilar, apunhalaram-lhe e deram o seu cadáver aos cães.

Algumas da tropas irlandesas, após prender a onze homens de Garcigliana, aqueceram um forno até que ficasse incandescente e obrigaram-nos a empurrar uns aos outros para dentro deste, até que chegassem ao último, o qual eles mesmos lançaram.

Michael Gonet, de noventa anos, foi queimado até a morte; Batista Oudri, outro ancião, foi apunhalado; a Bartolomeu Frasche fizeram furos em seus calcanhares e, através destes, amarraram as cordas, e foi puxado por estas até o cárcere; estas feridas gangrenaram, o que causaram a sua morte.

Magdalena de la Pierre, perseguida por alguns soldados, foi finalmente presa, derrubada ao solo e estraçalhada. Margarita Revella e Maria Pravillerin, duas mulheres muito idosas, foram queimadas vivas; Michael Bellino e Ana Bochardno foram decapitados.

O filho e a filha de um vereador do município de Giovanni foram lançados de uma ladeira muito íngreme, e deixados morrer de inanição em uma profunda cova existente no local. Um comerciante e sua esposa, com um bebê nos braços, foram lançados de um alto monte a um precipício abaixo e estraçalharam-se. José Chairet e Pablo Carneiro foram esfolados vivos.

Quando perguntaram a Cipriano Bustia se renunciaria a sua religião e tornar-se-ia católico, ele respondeu: “Prefiro antes renunciar à vida, ou até mesmo tornar-me um cão”. A esta afirmação, um sacerdote respondeu: “Por teres dito isto, perderás a vida e serás lançado aos cães”. Assim, arrastaram-no ao cárcere, onde permaneceu por muito tempo sem alimento, até morrer de inanição; após a sua morte, lançaram o seu cadáver à rua em frente ao cárcere, onde foi devorado por cães famintos.

Margarita Saretta foi apedrejada até a morte e, em seguida, lançada ao rio; Abriram a cabeça de Antonio Bartina e a José Pont abriram o corpo de alto a baixo.

Daniel Maria e todos os membros de sua família estavam enfermos, quando vários desalmados papistas entraram em sua casa e disseram que eram médicos práticos e os livrariam da enfermidade; o que fizeram, ao romper a cabeça de todos os membros da família.

Tomaram três filhos de um protestante chamado Pedro Fine, cobriram-nos de neve e os asfixiaram. Decapitaram a uma viúva anciã chamada Judite; e a uma formosa jovem despiram, violentaram e mataram.

Lúcia, mulher de Pedro Besson, em avançado estado de gestação, vivia nos povoados dos vales de Piemonte. Decidiu que se lhe fosse possível fugiria das terríveis cenas que por todas as partes contemplava; tomou então os seus dois filhos pequenos e dirigiu-se aos Alpes. Porém, ao terceiro dia de viagem, sobrevieram-lhe as dores de parto, e deu à luz um bebê, que morreu devido à extrema inclemência do tempo, como também os outros dois filhos. Os três foram encontrados mortos ao seu lado, ainda agonizante, pela pessoa que relatou os detalhes mencionados.

Francisco Gros, filho de um clérigo, cortaram lentamente sua carne em pequenos pedaços e, em seguida, os colocaram em um prato diante de seu pai; dois de seus filhos foram feitos em pedaços também; sua mulher foi amarrada a um poste, para que contemplasse como faziam estas crueldades a seu marido e a seus filhos. Finalmente, os algozes cansaram-se destas crueldades, cortaram a cabeça do marido e da mulher, e deram a carne de toda família aos cães.

O Sr. Tomás Margher fugiu para uma gruta, cuja entrada foi em seguida bloqueada pelos soldados; ele morreu de fome. Judite Revelin e sete crianças foram barbaramente assassinadas em suas camas; e uma viúva de quase oitenta anos foi esquartejada pelos soldados.

Ordenaram a Jacó Roseno que orasse aos santos, o que absolutamente se recusou a fazer. Alguns dos soldados o golpearam violentamente com garrotes para o fazerem obedecer; porém, prosseguiu resoluto. Por esta razão, vários deles dispararam suas armas e muitas balas alojaram-se em seu corpo. Enquanto agonizava, escarneciam dele, puxaram-no e diziam: “Vais rezar aos santos?”, “Vais rezar aos santos?”, ao que ele respondia: “Não!”, “Não!”, “Não!”. Então um dos soldados, com uma espada de lâmina grande, partiu-lhe a cabeça em duas partes, e pôs fim aos sofrimentos dele neste mundo, pelos quais será sem sombra de dúvidas gloriosamente recompensado na eternidade.

Susana Gacquin, uma moça a qual um soldado tentava violentar, opôs-se com forte resistência e, durante a luta, empurrou-o para um precipício, onde foi destroçado pela queda. Os companheiros do soldado, ao invés de admirar a virtude da jovem e de aplaudi-la por defender sua virgindade tão nobremente, lançaram-se sobre ela com as suas espadas e a despedaçaram.

Giovanni Pulhus, um pobre camponês de La Torre, foi preso pelos soldados como protestante, e o marquês de La Pianesta ordenou que fosse executado em um lugar próximo ao convento. Ao chegarem à forca, vários monges aproximaram-se e fizeram todo o possível para persuadi-lo a renunciar a sua religião. Porém, disse-lhes que jamais abraçaria a idolatria e sentia-se feliz por ser considerado digno de sofrer pelo nome de Cristo. Então fizeram-no lembrar-se do quanto sua mulher e filhos sofreriam se ele morresse, por dependerem do trabalho dele para terem o sustento. A isto respondeu: “Eu gostaria que a minha mulher e os meus filhos, assim como eu, considerassem antes as suas almas mais do que os seus corpos, e o mundo vindouro mais do que este mundo; e a respeito da angústia em que os deixo, Deus é misericordioso, e lhes proverá o sustento, enquanto forem dignos de sua proteção”. Ao verem a inflexibilidade deste pobre homem, os monges gritaram: “Acabem com ele, acabem com ele!” , o que o carrasco fez de imediato; o corpo foi a seguir despedaçado e lançado ao rio.

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